“Pois o amor de Cristo nos constrange…”

5 05UTC fevereiro 05UTC 2010

A fé dos historiadores

Arquivado em: MarceloFernandes — Marcelo Fernandes @ 21:32

em tempo: esse texto, tal como outros, estava engavetado nos meus arquivos, aguardando refinamento para ser postado posteriormente. Mas como vão passando os meses e eu nunca consigo parar diante desses textos para concluí-los, decidi postar esse, mesmo sem estar concluído. Ainda assim, espero que seja abençoador.

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“Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem”. (Hebreus 11:1)

“Cuidando que ninguém vos venha a enveredar por sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo”. (Colossenses 2:8)

      Já faz cinco anos que estou estudando o ofício do historiador. Mês passado obtive o título de bacharel nessa ciência. Algo importante em ser cristão e historiador é o estigma de que a História acaba com a fé das pessoas. Não é sem motivo, hoje compreendo melhor isso. A visão de mundo da pessoa que estuda história muda, e, creio, jamais retornará a algo semelhante do que foi.

     Antes de tudo, é preciso ter em mente o que é a Ciência História (ou a História, enquanto ciência). Ela não é um catálogo de verdades. Não é um registro das coisas que aconteceram, e principalmente, não é a verdade dos fatos. Isso é totalmente impossível para o homem, conhecer, seja por meio das ciências ou qualquer outro meio. O homem é limitado, mente e espíritos incapazes de contemplar o mínimo necessário para compreender o que poderíamos pensar como sendo verdade. Só com a ajuda do Espírito Santo o homem pode começar a andar nesse sentido. A História é uma ciência que muda com o tempo e o lugar. Isso é igualmente verdadeiro para qualquer Ciência Humana. A História, sempre limitada, é sempre uma mera interpretação de fragmentos do mundo. A História, como qualquer outra ciência, é incapaz de trabalhar e analisar questões relacionadas a fé, portanto, não pode julgá-la. Pode apenas estuda-la enquanto um aspecto cultural como qualquer outro, do mesmo modo que um sociólogo pode estudar a atuação das torcidas organizadas nos estádios de futebol.

     Se a fé da pessoa é baseada apenas no “ouvir dizer”, ela é abalada, pois é uma fé teórica, e História é exatamente questionadora de teorias. A Ciência da História se apresenta para o historiador então como um desafio ao desenvolvimento de uma fé viva, prática. Se essa não for a sua prática de vida, mas apenas uma teoria, ela sucumbirá. O historiador não consegue estabelecer sua fé sobre alicerces puramente teóricos. Ele precisa de experiências de vida. Para crer na Palavra do Senhor, o historiador precisa vê-la, senti-la na prática. Ouvir falar da paz do Senhor não o satisfaz, se ele não puder senti-la em sua vida. É interessante isso, uma vez que a Bíblia já indica que uma fé teórica não tem vida. “Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta”. (Tiago 2:17)

“Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos”. (Tiago 1:22)

“Eu te conhecia só de ouvir, mas agora meus olhos te vêem”. (Jó 42:5)

 Aos meus camaradas historiadores, e cientistas humanos de maneira geral, desejo-lhes uma fé viva!

Marcelo Fernandes

Testemunho difícil

Arquivado em: MarceloFernandes — Marcelo Fernandes @ 21:22

     Gostaria de dedicar breves pensamentos a um assunto importante: o testemunho. Aos 18 anos conheci o Senhor, e não demorei a perceber como essa é uma questão da qual o cristão não tem como se esquivar: as pessoas ao nosso redor, por mais que não digam e mesmo que não percebam, estão prestando atenção se o que fazemos está em consonância com o que dizemos, e se tudo está de acordo com o que elas sabem da Palavra de Deus. Somos mesmo um espetáculo (I Corintios 4:9).

     Tudo se torna mais fácil quando o cristão entende claramente que Deus está com ele o tempo todo. Muito antes de se importar com o que os outros vão pensar, ou até mesmo antes de glorificar o nome de Cristo ante os homens, o servo do Senhor sabe que cada pensamento, sentimento e ação que ele tem interferem em seu relacionamento com Deus. A relação com o Criador é o ponto chave da vida do cristão, o demais é consequencia.

     Mas tenho percebido que atualmente é cada vez mais difícil o cristão dar um testemunho que seja considerado fidedigno. Suas ações e intenções podem estar em consonância com a Palavra, mas existe uma desconfiança cada vez maior de que tudo seja apenas fachada, que a pessoa esteja se fazendo de santinha. Considerando nossa realidade, em que deputados se envolvem em falcatruas e oram agradecendo a Deus a propina recebida, isso deve ser considerado razoável. Se está difícil testemunharmos, devemos lembrar que tem muita gente usando o nome do Senhor em vão por aí. Nossa posição diante desse quadro, creio, deve ser orar para que Deus nos coloque a prova diante dessas pessoas, para que tenhamos a oportunidade de glorificar Jesus com nossas ações (II Timóteo 2:15).

     Há algumas décadas, os crentes no Brasil eram chamados de “Bíblia”. Eram considerados dignos de confiança pela maioria das pessoas, e quem dizia que era evangélico ganhava crédito com os outros. Hoje ganhamos muito em número, temos pastores pregando na TV, temos dezenas de cantores e ministérios vivendo para compor louvores ao Senhor. Entretanto, perdemos em credibilidade diante dos homens, reflexo da nossa falta de comprometimento com a Palavra. Como povo de Deus, é momento de nos consagrarmos. Buscar e continuar a buscar a face do Senhor.

Paz!

Marcelo Fernandes

11 11UTC janeiro 11UTC 2010

Carne vs Espírito: exemplo prático

Arquivado em: MarceloFernandes — Marcelo Fernandes @ 01:56

Imagine que você tem uma casa, em um terreno grande. Sua irmã casa-se com seu cunhado, e como está tudo em família, você resolve dar parte do seu terreno, para que eles possam construir uma casa e morar ali. Sua irmã torna-se dona de casa. Alguns anos depois, seu cunhado fica desempregado. Ele e sua irmã tem, nesse momento, dois filhos. Você ajuda no sustento, compartilhando o pouco que tem. Essa situação perdura por uns dois anos, até que seu cunhado consiga um novo emprego.

Um ano depois, você passa mal em casa. Sua pressão sobe, você tem grande dificuldade de respirar. Caido no chão, você não consegue se levantar. Você pensa no seu problema cardíaco, coisa que tem desde a infância, lembra que terá que operar em breve, pois sabe que sua vida está em risco. Sua esposa, aflita, chama ajuda. Sua irmã aparece, mede a pressão, vê que está altíssima, mesmo para você, que é hipertenso. Sua esposa e sua irmã têm dificuldades de levá-lo para a cama, uma vez que você é grande e forte. O calor de um sábado ensolarado do verão carioca não ajuda nessas situações.

Você está se perguntando onde está seu cunhado? Ele está a três metros de distância, na casa dele. Não, ele não veio te ajudar, nem sequer veio saber como você estava.

Como ficaria o seu coração e sua mente nesse caso?

Bom, eu não sei. Fiquei sabendo do ocorrido pelo telefone, no dia seguinte. Passado o susto, minha mente e coração gravitavam entorno do cunhado da história. Pensava nas verdades que ele precisava ouvir. Não é a segunda, nem terceira, nem quarta vez que ele tem atitudes como essa. Muitas vezes ele é que tem a iniciativa na criação de aborrecimentos. Um misto de indignação e ira circulava no meu sangue. Eu e minha mãe estávamos na sala, em silêncio, após desligarmos o telefone. Meus olhos encaravam a parede com a mesma suavidade com que um pitbull encara um gato que pula em seu quintal. As palavras da minha mãe quebraram o silêncio e aquele ciclo ruim:

“Temos que orar pelo seu tio.”

Sim, o meu tio. Já faz meses que estamos muito preocupados com a saúde dele. Voltar a pensar nele me fez perceber que os sentimentos que eu estava tendo, ao pensar no tal cunhado, estavam longe de serem amorosos.

Amor. Deus é amor, e devemos amar o próximo se queremos permanecer em Deus (I Jo 4:7-21). O amor, aliás, é o tema dos próximos meses que devo lecionar na Escola Bíblica Dominical, quando as férias dos professores em nossa igreja acabar, em fevereiro.

Um exemplo prático da carne militando com o espírito: o sentimento que devemos ter para com o próximo. Eu devo amar o cunhado do meu tio.

Amor. Tenho muito que aprender…

Marcelo Fernandes

27 27UTC novembro 27UTC 2009

outra sobre personalidade

Arquivado em: MarceloFernandes, Maximas — Marcelo Fernandes @ 12:22

“O homem, antes de mais nada, precisa ser e fazer aquilo o que ele acredita ser certo. Ele não pode dobrar seu caráter ante aos sorrisos ou as lágrimas de alguém, a expectativa de obter alguma riqueza, ou aos desejos obscuros do seu coração”

Marcelo Fernandes

20 20UTC novembro 20UTC 2009

Jesus, conferindo uma nova perspectiva de tempo

Arquivado em: MarceloFernandes — Marcelo Fernandes @ 01:17

          Ano do Senhor de 2009. Foi ontem, no 18º dia do mês de novembro que minha mente voltou a pensar nas questões do tempo. Havia colocado a seguinte frase no msn e no orkut: “Diziam que só não podemos dar jeito pra morte, mas aí Jesus resolveu isso também”. De fato, Jesus resolveu a questão da morte, esse evento paradigmático que tradicionalmente esmaga a alma humana. Nosso tempo na terra é encerrado com a morte, mas nossa vida não.

          No mesmo dia, às 17hs, me encontrei com outro proto-historiador. Ficamos de fazer uma reunião conhecida como quebra-gelo. Ele estava conversando com um amigo dele, um aprendiz de filósofo. Discordavam sobre concepções acerca do tempo. Acabamos o convidando  para a reunião. Para leitura, queria propor que debatéssemos aquele salmo que fala sobre “mil anos ser como um dia” perante Deus. Não o encontrava. Ao desistir, comecei a folear o livro dos Salmos em busca de outra leitura, até que me deparei com o 90. Exatamente o salmo pretendido. O lemos por inteiro, e debatemos como o homem percebe o tempo pelas preocupações que norteiam sua vida. Foi assim nesse escrito de Moisés. No meu caso, quase tudo tem girado em torno da próxima quinta, dia 26, quando farei a primeira prova pra tentar entrar no mestrado.

          A pouco, uma amiga me ligou.

Ela: “Você é um anjo, sabia? Você vai pro céu”.

Eu: “Vou pro céu por causa de Jesus, não por ser um anjo”

          Isso fez minha mente retomar algumas coisas conversadas naquele quebra-gelo com o aprendiz de historiador cristão e o proto-filósofo (aparentemente ateu): Jesus realmente muda a perspectiva da pessoa perante o tempo. Um giro provavelmente não apenas de 180, mas de 360º. Olhamos para tudo a nossa volta, e sabemos que está tudo nas mãos Dele, e que nossa eternidade está apenas no início. É tentar se aproximar da ótica de Deus, que existe “de eternidade a eternidade”.

          Uma grande questão que anda passando muito na minha mente: e o tempo de compartilhar tudo isso com o próximo?

          Encerro o post com a sequencia da conversa com minha amiga (em tempo: ela ainda não conhece o Senhor).

Ela: “Mas aí não nos veremos mais, pois você vai pro céu, e eu pro inferno”.

Eu: “Mas até você morrer você ainda tem tempo pra mudar isso”.

          Ela riu. Mas espero que um dia ela também encontre em Deus uma nova perspectiva de tempo.

          Que Jesus também lhe confira uma nova perspectiva de tempo!

          Marcelo Fernandes

13 13UTC novembro 13UTC 2009

Resenha de Augusto Cury, O Mestre dos Mestres

Arquivado em: MarceloFernandes, Resenhas — Marcelo Fernandes @ 12:16

          Em meio a correria desse final de ano, finalmente consegui terminar a leitura do livro de Augusto Cury – O Mestre dos Mestres: Jesus, o maior educador da história, primeiro livro de sua série Análise da Inteligência de Cristo.

          Bom, trata-se do primeiro livro que leio desse autor. E apesar dele receber críticas de alguns, sinceramente eu gostei do livro. Ainda que não goste de livros na linha de auto-ajuda (algo que tem sido muito pregado por aí, usando o evangelho apenas como pano de fundo), destaco que essa obra de Cury, lançada em 2006, destaca-se de outros livros que tenho lido principalmente por auxiliar o leitor a refletir sobre o amor de Jesus Cristo manifesto em suas palavras e ações antes da cruz. Considero isso muito interessante porque normalmente lembramos apenas desta que foi a prova maior de amor, mas não damos atenção a abnegação de Cristo no cotidiano dele. Cury costuma pensar as ações e palavras de Jesus em seu contexto judaico e como seria se uma pessoa os fizessem na atualidade, o que enriqueceu suas reflexões.

          Outro ponto que ressalto é que as quase duzentas páginas do livro refletem quase duzentas páginas de conteúdo! Isso vem na contramão do mercado editorial atual, no qual os livros acabam em vinte ou trinta páginas e depois tem umas cinquenta páginas de pura enrolação. Enfim, com prova pro mestrado em menos de duas semanas, preciso voltar aos estudos, só passei aqui hoje pra dizer que recomendo esse livro.

Paz!  Marcelo Fernandes

15 15UTC outubro 15UTC 2009

Olha onde pisa!

Arquivado em: MarceloFernandes — Marcelo Fernandes @ 16:44

(mensagem enviada originalmente em 21/03/08)

Todos nessa vida – sem exceção – em um momento ou outro pelo menos, já se perguntaram se Deus os teria abandonado. Quem não O conhece não acredita que Ele exista, e mesmo os que O conhecem podem vacilar, dependendo da situação. As tempestades vem sobre todos, e elas podem dificultar nossa visão espiritual, impediando que vejamos o Senhor agindo: Eis que ele passa por mim, e não o vejo; segue perante mim, e não o percebo. (Jó 9:11).
 
Nesses momentos em que estamos na escuridão e não sabemos pra onde estamos indo é que fica mais claro a única coisa que pode iluminar nosso caminho: A tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos e luz que clareia o meu caminho. (Sl 119:105).
 
A leitura da Palavra de Deus deve ser um hábito, para que ela esteja viva em nós. Assim não ficamos cegos quando somos cobertos pela escuridão.
 
Tenha um dia abençoado!
Marcelo Fernandes
 

“Quando fazia resplandecer a sua lâmpada sobre a minha cabeça, quando eu, guiado por sua luz, caminhava pelas trevas;” (Jó 29:3)

14 14UTC outubro 14UTC 2009

O amor de Cristo nos constrange (II Co 4:14-15)

Arquivado em: MarceloFernandes — Marcelo Fernandes @ 14:16

          Nessa semana uma informação técnica do wordpress me pareceu interessante. Uma pessoa digitou em algum serviço de busca a pergunta “O que significa que o amor de Cristo nos constrange”, chegando assim a este blog. Infelizmente, essa pessoa não encontrou a resposta aqui. Ainda que tardiamente, vale a pena responder.

          Essa oração (no sentido de sujeito-verbo-predicado, não no sentido de falar com o Pai) está em II Coríntios, 4:14. Reproduzo abaixo também o versículo seguinte.

          “Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos, logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressucitou.”

          O blog recebeu esse título no ano passado, um período muito especial em minha vida espiritual, ano em que mais investi em meu relacionamento com Deus. E essa frase é a que melhor expressa minha visão do amor de Cristo desde então: constrangimento. O amor de Jesus é tamanho que deixa o homem constrangido. É só parar e pensar no ato Dele, em tudo o que Ele passou por nós, e nos perguntarmos: nós mereciamos esse sacrifício? NÃO. Nós nunca fomos merecedores do amor do nosso Salvador. E mesmo depois disso, não há nada que façamos que nos atribua qualquer valor com o qual possamos recompensá-Lo. Mesmo que vivamos para a Sua obra, não temos como pagar a Deus pela cruz. Essa é a máxima expressão de amor que já existiu e existirá, sem sombra de dúvida. Por isso é constrangedor. E não é uma salvação imposta, Deus não impõe que o aceitemos, Ele nos deixa escolher. Por isso ninguém pode reclamar: “Pô, Jesus maior vacilão, morreu em meu lugar, eu queria mesmo é ir pro inferno”. Ainda assim Ele nos ama. Seu amor é incomensurável, incondicional e impagável. Por isso é constrangedor.

 Paz!

Marcelo Fernandes

12 12UTC outubro 12UTC 2009

Santidade, conceito teológico

Arquivado em: Conceitos Teológicos, MarceloFernandes — Marcelo Fernandes @ 23:23

          Bom, antes de mais nada, cabe a ressalva de que não estou aqui propondo um conceito de santidade (ainda que o post esteja arquivado na categoria conceitos teológicos). Principalmente porque creio que nem em uma tese de doutorado esse assunto poderia ser esgotado. Minha intenção é propor reflexões sobre o tema.

          Estudos introdutórios sobre santidade costumam conceituá-la no sentido de consagração à Deus, como separação do mundo e entrega ao Pai. Essa idéia demonstra claramente uma dualidade entre sagrado e profano.

          Nesses meus sete anos de caminhada com o Senhor, minha concepção de santidade mudou bastante. Logo após a conversão, eu a entendia como o cumprimento da Lei, como tentativa de evitar toda ação que O desagradava. Pouco depois, com um entendimento um pouco melhor, passei a conceber essa idéia como tudo o que O agradava. Mas essa noção foi modificada de alguns anos para cá, quando minha compreensão de pecado e minha auto-crítica como pecador tornaram-se mais radicais. Desde então, quando penso em santidade entendo antes de tudo como uma harmonia espiritual, um bom relacionamento com Deus. Santificar-se como uma busca do que se passa no coração de Deus, uma aproximação Dele. A santidade expressaria então o relacionamento da pessoa com o Senhor.

          Conferindo o comentário do meu camarada André Caruzo no conceito pecado, postado no último 10 de setembro, podemos ver que alguém já conceitualizou santidade como “tudo aquilo que preserva a vida”. Esta talvez seja a definição mais rica, feita com poucas palavras, que já ouvi. Considerando a estreita relação entre iniquidade e pecado (cujo salário é a morte, Rm 6:23), essa conceitualização associa santidade ao amor de Deus. Fica claro quando lembramos que Deus é amor (I Jo 4:16), e não há vida fora dele. Essa noção de santidade abre caminho para uma infinidade de reflexões na linha do amor (outro conceito que não daria pra fechar…).

          Os estudos em diversas ciências humanas também podem contribuir bastante. Pensando na crença aos homens santos, a historiadora Andréia Frazão considera santidade como  “… o conjunto de comportamentos, atitudes e qualidades que num determinado lugar e tempo são critérios para considerar um indivíduo como venerável…”. Esse viés reflete principalmente as relações sociais, um dos pontos chaves da vida cristã (pois creio que apenas uma minoria considera a existência de uma vida cristã plena por indivíduos isolados. O cristianismo é, nesse aspecto, uma religião de sujeitos em grupos, comunidades, não sozinhos. Pense na própria idéia de igreja).

          Outra linha de pensamento que abre significativamento o leque de reflexões sobre santidade foi proposto por Sofia Boesch Gajano, ao estudar aspectos desse tema na Idade Média: “A santidade no Ocidente medieval constitui um fenômeno considerável, de múltiplas dimensões: fenômeno espiritual, ela é a expressão da busca do divino; fenômeno teológico, ela é a manifestação de Deus no mundo; fenômeno religioso, ela é um momento privilegiado da relação com o sobrenatural; fenômeno social, ela é um fator de coesão e identificação dos grupos e das comunidades; fenômeno institucional, ela está no fundamento das estruturas eclesiásticas e monásticas; fenômeno político, enfim, ela é um ponto de interferência ou de conscidência da religião e do poder. Pode-se, consequentemente, considerar a santidade o lugar de uma mediação bem sucedida entre o natural e o sobrenatural, o material e o espiritual, o mal e o bem, a morte e a vida.”

          Outro ponto importante é lembrarmos que Deus carrega consigo a santidade em si, sendo a sua fonte. Enquanto o homem se santifica, Deus É santo. Por isso, para diferenciar essa santidade tão superior, as vezes diz-se que Ele é “santo, santo, santo” (três vezes santo).

          Por fim, é importante lembrarmos que é preciso desvincular a idéia de santidade de um legalismo (como era minha visão nos meus meses pós-conversão), bem como de arrogância ou falsa modéstia. Pensar em santidade deve trazer consigo idéias (e práticas) como quebrantamento e abnegação.

 A paz!

Marcelo Fernandes

 Ref. SILVA, Andréia Frazão. Reflexões Metodológicas sobre a Análise do Discurso em Perspectiva Histórica: Paternidade, Maternidade, Santidade e Gênero. Cronos: Revista de História, n. 6, p. 194-223, 2002.

 GAJANO, Sofia Boesch. Santidade. In: In: LE GOFF, J. e SCHMITT, J. (Coord.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru: Edusc, 2006, 2 v., v. 2, p.449-463.

11 11UTC outubro 11UTC 2009

Divagações sobre violência e paz

Arquivado em: MarceloFernandes — Marcelo Fernandes @ 01:23

          Ontem, 09/10/09, Barack Obama, presidente americano a menos de um ano e candidato a lenda americana por tudo o que representa (e pelo que espera-se dele), ganhou o prêmio Nobel da Paz. No primeiro segundo, achei que era uma piada. No segundo, concluí que não tava entendendo nada. No terceiro, convenci-me de que era uma pressão internacional sobre o agraciado pela premiação, um sinal do que o mundo espera da política externa norte-americana, depois de 8 anos de ingerência bushiana. A expectativa é que um democrata pegue leve nas armas. Que as use apenas para impor outros que estão brigando a parar e resolver na conversa, mas sem levar a beligerância às vias de fato. Uma pax obamica.

          O Governo norte-americano, cujo Obama é chefe, é nada menos que o maior vendedor de armamento do planeta, e depende desse comércio para tentar se manter como maior potência do globo. Governo que invadiu dois países e está em guerra neles, tentando enfraquecer os antigos grupos hegemônicos depostos e deixar os destroços nas mãos de outros grupos, aos quais ele elevou ao poder por serem aliados. Uma herança dramática criada pelos americanos que vieram antes deste presidente, um quadro complexo criado pelo comitê do Nobel com essa premiação. Uma equação difícil pra esse ex-senador resolver.

          Bem já cantou o Oficina G3, “Humanos que pedem a paz em toda a Terra, e a buscam com armas e tanques de guerra.” (música Até Quando?, álbum Humanos). O século XXI vê sua primeira década acabar com a esperança de uma paz armada sob a liderança de uma superpotência militar.

          Pessoalmente, estou as voltas com um projeto de mestrado. O assunto? O que homens da Igreja nos séculos XII e XIII pensavam sobre violência. Acho que desde os primórdios esse tema preocupa a humanidade.

          Dois versículos que gosto muito:

 “Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito…”. Zc 4:6 (ARC)

 “… Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão” Mt 26:52 (ARA)

           Gandhi disse: “Não há caminho para a paz, a paz é o caminho.” Mas desde que o homem passou a viver em sociedade, a violência (entendida aqui como coação física) é um elemento ao mesmo tempo conformador e desestabilizador das relações sociais. Nós legitimamos e reproduzimos essas práticas com nossos discursos e ações.

          Que Deus abençõe o Obama. Porque o mundo tá esperando que o coitado seja um deus…

 A paz do Senhor (mais do que nunca, a paz!)

Marcelo Fernandes

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