“Pois o amor de Cristo nos constrange…”

12 de outubro de 2009

Santidade, conceito teológico

Filed under: Conceitos Teológicos,MarceloFernandes — Marcelo Fernandes @ 23:23

          Bom, antes de mais nada, cabe a ressalva de que não estou aqui propondo um conceito de santidade (ainda que o post esteja arquivado na categoria conceitos teológicos). Principalmente porque creio que nem em uma tese de doutorado esse assunto poderia ser esgotado. Minha intenção é propor reflexões sobre o tema.

          Estudos introdutórios sobre santidade costumam conceituá-la no sentido de consagração à Deus, como separação do mundo e entrega ao Pai. Essa idéia demonstra claramente uma dualidade entre sagrado e profano.

          Nesses meus sete anos de caminhada com o Senhor, minha concepção de santidade mudou bastante. Logo após a conversão, eu a entendia como o cumprimento da Lei, como tentativa de evitar toda ação que O desagradava. Pouco depois, com um entendimento um pouco melhor, passei a conceber essa idéia como tudo o que O agradava. Mas essa noção foi modificada de alguns anos para cá, quando minha compreensão de pecado e minha auto-crítica como pecador tornaram-se mais radicais. Desde então, quando penso em santidade entendo antes de tudo como uma harmonia espiritual, um bom relacionamento com Deus. Santificar-se como uma busca do que se passa no coração de Deus, uma aproximação Dele. A santidade expressaria então o relacionamento da pessoa com o Senhor.

          Conferindo o comentário do meu camarada André Caruzo no conceito pecado, postado no último 10 de setembro, podemos ver que alguém já conceitualizou santidade como “tudo aquilo que preserva a vida”. Esta talvez seja a definição mais rica, feita com poucas palavras, que já ouvi. Considerando a estreita relação entre iniquidade e pecado (cujo salário é a morte, Rm 6:23), essa conceitualização associa santidade ao amor de Deus. Fica claro quando lembramos que Deus é amor (I Jo 4:16), e não há vida fora dele. Essa noção de santidade abre caminho para uma infinidade de reflexões na linha do amor (outro conceito que não daria pra fechar…).

          Os estudos em diversas ciências humanas também podem contribuir bastante. Pensando na crença aos homens santos, a historiadora Andréia Frazão considera santidade como  “… o conjunto de comportamentos, atitudes e qualidades que num determinado lugar e tempo são critérios para considerar um indivíduo como venerável…”. Esse viés reflete principalmente as relações sociais, um dos pontos chaves da vida cristã (pois creio que apenas uma minoria considera a existência de uma vida cristã plena por indivíduos isolados. O cristianismo é, nesse aspecto, uma religião de sujeitos em grupos, comunidades, não sozinhos. Pense na própria idéia de igreja).

          Outra linha de pensamento que abre significativamento o leque de reflexões sobre santidade foi proposto por Sofia Boesch Gajano, ao estudar aspectos desse tema na Idade Média: “A santidade no Ocidente medieval constitui um fenômeno considerável, de múltiplas dimensões: fenômeno espiritual, ela é a expressão da busca do divino; fenômeno teológico, ela é a manifestação de Deus no mundo; fenômeno religioso, ela é um momento privilegiado da relação com o sobrenatural; fenômeno social, ela é um fator de coesão e identificação dos grupos e das comunidades; fenômeno institucional, ela está no fundamento das estruturas eclesiásticas e monásticas; fenômeno político, enfim, ela é um ponto de interferência ou de conscidência da religião e do poder. Pode-se, consequentemente, considerar a santidade o lugar de uma mediação bem sucedida entre o natural e o sobrenatural, o material e o espiritual, o mal e o bem, a morte e a vida.”

          Outro ponto importante é lembrarmos que Deus carrega consigo a santidade em si, sendo a sua fonte. Enquanto o homem se santifica, Deus É santo. Por isso, para diferenciar essa santidade tão superior, as vezes diz-se que Ele é “santo, santo, santo” (três vezes santo).

          Por fim, é importante lembrarmos que é preciso desvincular a idéia de santidade de um legalismo (como era minha visão nos meus meses pós-conversão), bem como de arrogância ou falsa modéstia. Pensar em santidade deve trazer consigo idéias (e práticas) como quebrantamento e abnegação.

 A paz!

Marcelo Fernandes

 Ref. SILVA, Andréia Frazão. Reflexões Metodológicas sobre a Análise do Discurso em Perspectiva Histórica: Paternidade, Maternidade, Santidade e Gênero. Cronos: Revista de História, n. 6, p. 194-223, 2002.

 GAJANO, Sofia Boesch. Santidade. In: In: LE GOFF, J. e SCHMITT, J. (Coord.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru: Edusc, 2006, 2 v., v. 2, p.449-463.

10 de setembro de 2009

Pecado, conceito teológico

Filed under: Conceitos Teológicos,MarceloFernandes — Marcelo Fernandes @ 13:54

          O pecado é um dos pontos chave do cristianismo. Pensar em nossa vida espiritual por mais de um minuto sem pensar no conceito de pecado é quase impossível, dado que a Bíblia é categorica em afirmar que todos somos pecadores.

          Mas o que é o pecado?

          Considero que em última análise todos somos de algum modo como o Menocchio, o célebre moleiro que protagoniza O queijo e os vermes, obra prima de Carlo Ginzburg: apreendemos o mundo ao nosso redor, seja o secular ou o espiritual, com as categorias e ferramentas que adquirimos/desenvolvemos ao longo da vida. Com isso construímos, cada um, uma visão única de mundo. Não existe um que pense igual ao outro, todos temos nossas idiossincrasias. O mundo visto pelo Menocchio era um queijo e vermes…

          Meu entendimento sobre o pecado não é fruto de uma pesquisa teológica sobre o assunto. É, antes, resultado da minha caminhada com o Senhor nesses quase sete anos, leitura bíblica, conversas e debates com amigos, professores de Escola Bíblica Dominical, pregações ouvidas. É, antes de mais nada, uma constatação do meu viver, uma tentativa de auto-crítica nada condescendente.

          Antes de mais nada, é preciso pensar em santidade (algo que conceitualizarei mais detidamente em outra oportunidade). Deus é santo, e só Ele o é. A santidade é o que gera a paz sobrenatural que Jesus prometeu. É como aqueles lagos perfeitos que só vemos em filmes e fotos, totalmente tranquilos, sem nenhum movimento, nenhuma perturbação no espelho d’água.        

          Por fim, o pecado. Ele não é um vacilo, como muitos pensam. Não é um mero erro, como a maioria gosta de pensar. “Errar é humano”, é muito repetido. Sim, todos erram. Mas errar é descarregar nosso estresse em alguém que não tem nada haver com nossos problemas, jogar futebol depois da feijoada, escolher o Maradona como técnico da Argentina. O pecado é algo muito mais sério, de consequencias funestas para os outros, mas principalmente para quem o pratica (Romanos 6:23). Entendo o pecado como uma rebelião espiritual contra a santidade de Deus. É tacar uma pedra e macular aquele lago que citamos a pouco. É afirmar na prática que estamos contra Deus, e queremos nossa separação Dele.

          Mas o sangue do Cordeiro nos lava de todo pecado, por Ele somos justificados. Com a direção do Espírito Santo, temos nova oportunidade de buscarmos a paz, encontrarmos o lago perfeito denovo… Aleluia!

 A paz!

Marcelo Fernandes

27 de julho de 2009

Saudade, conceito teológico

Filed under: Conceitos Teológicos,MarceloFernandes,SamuelMarquesGomes — Marcelo Fernandes @ 18:45

            O fim de semana foi muito bom. O clima frio e minha gripe não atrapalharam. Dois amigos vieram para casa no sábado, e ficaram para irmos a minha igreja no domingo de manhã. Isso quer dizer, é lógico, que não conseguimos conter nossas bocas, e mais uma vez as conversas chegaram às quatro e meia da manhã, horário que está virando uma tradição nessas reuniões.

             Os objetos da conversa éramos nós mesmos, a abordagem da vez era a psicologia. Muitos “não-ditos” foram pronunciados, “pactos silenciosos” foram falados. Talvez isso pudesse ter provocado algum constrangimento, mas as risadas constantes demonstraram que não foi o caso. Como não podia deixar de ser, não tem como conduzirmos uma conversa de umas seis horas sobre nossas vidas sem falarmos de Deus. Lá pelas tantas um deles percebeu: “E aqui estamos nós falando de Deus de novo…”

            Sim, pois Deus está presente em nossas vidas, mas não totalmente. Lembrou-me de um conceito criado por um amigo meu, que temos usado em nossos debates teológicos: saudade. Com a queda, o homem se afastou de Deus, daí o grande vazio que todo homem sente. Aceitar a Jesus como Salvador faz com que o Espírito Santo habite na pessoa, preenchendo parcialmente esse vazio. Parcialmente, pois sentimos Sua presença, mas ainda não estamos com Ele. Então o cristão não tem mais o vazio, mas ainda sente uma saudade, que é a vontade de estar com o seu Criador. Simples, não? Enquanto estamos por aqui, temos que aprender a lidar com essa e outras saudades. Existe tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar, querendo ou não…

            Dá vontade de filosofar sobre saudade, mas isso vai ficar pra outro dia.

            Que o Consolador tenha liberdade em nossos corações, nos ensinando a lidar com as diversas saudades.

A paz!

Marcelo Fernandes

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Atualização: uma vez que o criador deste conceito, Samuel Marques Gomes, passará a ser co-responsável pelo blog, esse post é arquivado em uma categoria com seu nome (10/09/09).

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