Bom, antes de mais nada, cabe a ressalva de que não estou aqui propondo um conceito de santidade (ainda que o post esteja arquivado na categoria conceitos teológicos). Principalmente porque creio que nem em uma tese de doutorado esse assunto poderia ser esgotado. Minha intenção é propor reflexões sobre o tema.
Estudos introdutórios sobre santidade costumam conceituá-la no sentido de consagração à Deus, como separação do mundo e entrega ao Pai. Essa idéia demonstra claramente uma dualidade entre sagrado e profano.
Nesses meus sete anos de caminhada com o Senhor, minha concepção de santidade mudou bastante. Logo após a conversão, eu a entendia como o cumprimento da Lei, como tentativa de evitar toda ação que O desagradava. Pouco depois, com um entendimento um pouco melhor, passei a conceber essa idéia como tudo o que O agradava. Mas essa noção foi modificada de alguns anos para cá, quando minha compreensão de pecado e minha auto-crítica como pecador tornaram-se mais radicais. Desde então, quando penso em santidade entendo antes de tudo como uma harmonia espiritual, um bom relacionamento com Deus. Santificar-se como uma busca do que se passa no coração de Deus, uma aproximação Dele. A santidade expressaria então o relacionamento da pessoa com o Senhor.
Conferindo o comentário do meu camarada André Caruzo no conceito pecado, postado no último 10 de setembro, podemos ver que alguém já conceitualizou santidade como “tudo aquilo que preserva a vida”. Esta talvez seja a definição mais rica, feita com poucas palavras, que já ouvi. Considerando a estreita relação entre iniquidade e pecado (cujo salário é a morte, Rm 6:23), essa conceitualização associa santidade ao amor de Deus. Fica claro quando lembramos que Deus é amor (I Jo 4:16), e não há vida fora dele. Essa noção de santidade abre caminho para uma infinidade de reflexões na linha do amor (outro conceito que não daria pra fechar…).
Os estudos em diversas ciências humanas também podem contribuir bastante. Pensando na crença aos homens santos, a historiadora Andréia Frazão considera santidade como “… o conjunto de comportamentos, atitudes e qualidades que num determinado lugar e tempo são critérios para considerar um indivíduo como venerável…”. Esse viés reflete principalmente as relações sociais, um dos pontos chaves da vida cristã (pois creio que apenas uma minoria considera a existência de uma vida cristã plena por indivíduos isolados. O cristianismo é, nesse aspecto, uma religião de sujeitos em grupos, comunidades, não sozinhos. Pense na própria idéia de igreja).
Outra linha de pensamento que abre significativamento o leque de reflexões sobre santidade foi proposto por Sofia Boesch Gajano, ao estudar aspectos desse tema na Idade Média: “A santidade no Ocidente medieval constitui um fenômeno considerável, de múltiplas dimensões: fenômeno espiritual, ela é a expressão da busca do divino; fenômeno teológico, ela é a manifestação de Deus no mundo; fenômeno religioso, ela é um momento privilegiado da relação com o sobrenatural; fenômeno social, ela é um fator de coesão e identificação dos grupos e das comunidades; fenômeno institucional, ela está no fundamento das estruturas eclesiásticas e monásticas; fenômeno político, enfim, ela é um ponto de interferência ou de conscidência da religião e do poder. Pode-se, consequentemente, considerar a santidade o lugar de uma mediação bem sucedida entre o natural e o sobrenatural, o material e o espiritual, o mal e o bem, a morte e a vida.”
Outro ponto importante é lembrarmos que Deus carrega consigo a santidade em si, sendo a sua fonte. Enquanto o homem se santifica, Deus É santo. Por isso, para diferenciar essa santidade tão superior, as vezes diz-se que Ele é “santo, santo, santo” (três vezes santo).
Por fim, é importante lembrarmos que é preciso desvincular a idéia de santidade de um legalismo (como era minha visão nos meus meses pós-conversão), bem como de arrogância ou falsa modéstia. Pensar em santidade deve trazer consigo idéias (e práticas) como quebrantamento e abnegação.
A paz!
Marcelo Fernandes
Ref. SILVA, Andréia Frazão. Reflexões Metodológicas sobre a Análise do Discurso em Perspectiva Histórica: Paternidade, Maternidade, Santidade e Gênero. Cronos: Revista de História, n. 6, p. 194-223, 2002.
GAJANO, Sofia Boesch. Santidade. In: In: LE GOFF, J. e SCHMITT, J. (Coord.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru: Edusc, 2006, 2 v., v. 2, p.449-463.