(mensagem enviada originalmente no final de 2008)
Deus tem me ensinado muito esse ano no que se refere ao tempo. Costumamos falar que existem dois tempos: o dos homens e o de Deus. O tempo dos homens é aquele expresso pela palavra grega cronos: o tempo do calendário, do relógio, tempo que costuma nortear a nossa vida. Esse início do século XXI no qual vivemos é o tempo que anda cada vez mais rápido, cuja ferramenta principal, diriam alguns, é a Internet, cada vez mais rápida. Vivemos na Era da informação, que transita em uma velocidade cada vez maior. Eu por exemplo tenho o hábito de trabalhar no computador e conversar com pessoas por e-mail. E quando fico esperando uma resposta por mais de um minuto, as pontas dos dedos começam a transpirar, a impaciência se manifesta. Dois minutos depois estou eu atualizando a página a cada trinta segundos, me perguntando porque a resposta esperada ainda não chegou. Vivemos também o tempo do consumo, da busca por mais dinheiro, e da permanente qualificação profissional: trabalhamos cada vez mais, estudamos cada vez mais, buscamos ter cada vez mais. Se o mercado de trabalho começou a privilegiar os que tinham nível universitário na procura por um bom emprego, o próprio Ensino Superior começou a se render a necessidade de ser mais rápido: nasceram os cursos politécnicos, multiplicam-se os cartazes com os dizeres “Faça a faculdade em dois anos”.
E sentimos os dias passando cada vez mais rápidos, as semanas parecem horas, os anos voam pela janela… e a vida se vai como o vento inesperado: não a vimos chegando, mal podemos dizer quando ela se foi. Só nos resta um mal estar por perceber essas coisas e nos sentirmos impotentes perante isso tudo. Se nossos antepassados eram escravos do calendário, nós somos cada vez mais escravos do relógio.
Esse mal estar, a ansiedade e o medo provocado por essa perspectiva do tempo fugaz é uma das muitas conseqüências do nosso afastamento de Deus. Fomos criados para a eternidade, mas nossos pecados nos trouxeram a morte, e não estamos preparados para esse tempo limitado, finito. O Senhor não nos criou para viver algemados por cronos, mas nossa prisão é conseqüência dos nossos pecados.
E eis que então nos voltamos para a cruz, e Jesus nos liberta dos pecados. Mas nossa mente e nosso coração permanecem pensando sempre na noção cronológica do tempo. Somos imediatistas, temos grande dificuldade de entendermos o tempo de Deus. Esse tempo tão diferente do nosso, expresso pelo vocábulo kairós. É interessante notar como a Bíblia apresenta várias vezes o conselho: espera no Senhor…
Nossa dificuldade de entender esse tempo de Deus é decorrente de nossa pouca intimidade com Ele. E o problema é que, mesmo sem pensar nisso, desejamos que Deus se adapte no nosso tempo, no nosso cronos, para termos um relacionamento com Ele. Gostamos da salvação, gostamos de pedir coisas a Ele, mas pouco O buscamos. E se nos recomendam buscar mais a Deus, costumamos responder como se estivéssemos sendo ofendidos: “Tenho muito o que fazer, tenho a minha própria vida pra viver. Eu trabalho, estudo, tenho família, preciso me divertir também…”. E então lembramos de Deus rapidamente naquelas orações que fazemos ao nos deitar, nas quais dizemos três ou quatro palavras, e terminamos com um amém assustado no dia seguinte, com o despertador tocando. Pensemos na nossa hipocrisia, nossa falta de sinceridade com nós mesmos: dizemos que Jesus é o Senhor, mas se nos recomendam estar mais tempo com Ele, dizemos que não temos tempo, como se Deus fosse um intruso, alguém que entrou na nossa vida sem permissão.
Irmãos, quem quer se libertar desse tempo limitado e descansar no tempo de Deus precisa ter um relacionamento mais íntimo com Ele. E para isso não podemos ter escrúpulos quanto ao tempo que investimos em buscar a face do Senhor. Você por acaso já conheceu alguém e tornou-se íntimo dessa pessoa em um dia? Com certeza não, conhecer e ter real intimidade com alguém demanda tempo. Por que pensamos que com Deus pode ser diferente? Aceitamos a salvação, e no dia seguinte já sabemos de tudo o que agrada a Deus, entendemos como Ele age em nossas vidas e no mundo?
Que possamos investir na nossa própria vida, investindo mais tempo com Deus. Vamos trocar essa vida marcada por um tempo passageiro e ter em Jesus vida em abundância.
Que o Senhor nos abençoe!
Marcelo Fernandes
“Deste aos meus dias o cumprimento de alguns palmos; à tua presença, o prazo da minha vida é nada. Na verdade, todo homem, por mais firme que esteja, é pura vaidade. Com efeito, passa o homem como uma sombra; em vão se inquieta; amontoa tesouros e não sabe quem os levará. E eu, Senhor, que espero? Tu és minha esperança”.
Salmo 39:5-7